Guerra e Comércio: O Novo Tabuleiro Global do Brasil

Conflitos no Oriente Médio e tarifaço de Trump redesenham o comércio exterior brasileiro em 2026.

O impacto da guerra no comércio exterior brasileiro nunca esteve tão em evidência quanto agora. Vivemos, em março de 2026, um cenário em que o Brasil bateu recordes históricos de exportação — US$ 348,7 bilhões em 2025, segundo o MDIC — mas ao mesmo tempo enfrenta ameaças vindas de todas as direções: um Oriente Médio em escalada de conflito, uma guerra tarifária que ainda não terminou e rotas marítimas que viram zonas de risco. Sim, os números são bonitos. Mas por baixo do tapete, tem muita coisa acumulada.

Guerra no Comércio Exterior: Recordes na Vitrine, Incerteza nos Bastidores

O Brasil encerrou 2025 com exportações de US$ 348,7 bilhões, superando o recorde anterior em US$ 9 bilhões. Em volume, o crescimento foi de 5,7% — mais que o dobro do que a OMC projetou para o mundo no mesmo período. GOV.BR Mais de 40 mercados bateram recordes de compras de produtos brasileiros, com destaque para Índia, Turquia, Canadá e Paquistão. Na teoria, é pop. Na prática, esses números escondem uma dependência estrutural que precisa ser discutida com seriedade: o Brasil ainda vende muito para poucos compradores, e qualquer tremor geopolítico abala toda a cadeia.

O motor do comércio exterior continua aquecido, mas os reflexos da guerra no comércio exterior global já aparecem nos dados do MDIC, o encarecimento de rotas estratégicas e novas barreiras digitais transformaram a logística internacional em uma disciplina de gestão de risco e inteligência de dados. ModalConnection Não basta mais só produzir bem e barato. É preciso chegar lá — e isso virou um desafio à parte.

O Tarifaço de Trump e o Fim do Sistema Multilateral

Se tem um personagem que dominou o palco do comércio global em 2025, esse personagem se chama Donald Trump. No ano de 2025, foi decretada a morte do sistema multilateral com a postura de Trump. A afirmação mais repetida e que melhor descreveu o período foi: a imprevisibilidade da política de Trump traz incertezas para as decisões de investimento e comércio para a economia mundial. Blog do IBRE

Para o Brasil, o efeito foi direto e doloroso. Para os Estados Unidos, houve queda de 6,6% nas exportações brasileiras no ano, concentrada entre agosto e dezembro, como resultado do tarifaço imposto pelo governo norte-americano a parte dos produtos brasileiros. A maior redução ocorreu em outubro (–35,4%). GOV.BR A China, porém, mais que compensou: a exportação para a China cresceu 6% e atingiu US$ 100 bilhões, impulsionada por soja, carne bovina, açúcar, celulose e ferro-gusa. GOV.BR Ótimo para o curto prazo — mas dependência excessiva de um único parceiro é receita para dor de cabeça futura.

A guerra das tarifas entre os Estados Unidos e China vai obrigar as indústrias chinesas a diversificar seus mercados para escoar a produção interna — o que pode ser desafiador para o Brasil, já que produtos chineses podem ser barateados para facilitar o escoamento e competir com a cadeia de suprimentos local, especialmente no setor siderúrgico. Insights Logcomex

Como a Guerra no Comércio Exterior Mudou as Regras com Trump

Aqui mora o perigo mais imediato, o tarifaço norte-americano intensificou a guerra no comércio exterior e isolou parceiros históricos — e o menos discutido no noticiário generalista. As exportações brasileiras ao Oriente Médio totalizaram US$ 16,1 bilhões em 2025, equivalente a 4,6% de todas as vendas do Brasil ao exterior. O Oriente Médio recebe 34,8% de todas as exportações brasileiras de frango e 32,4% das de milho. O TEMPO Um em cada três frangos que o Brasil embarca ao mundo passa por essa região. Quando os portos fecham, o problema é imediato.

E eles fecharam. Com a escalada do conflito após os ataques ao Irã, os portos da região foram fechados preventivamente pelas companhias armadoras. Há alternativas como rotas pelo Canal de Suez e Cabo da Boa Esperança, mas as empresas não estão aceitando novas reservas. Política Livre Para um exportador brasileiro, isso significa carga parada no mar por até 40 dias, contratos em risco e clientes procurando fornecedores alternativos.

Fertilizantes e Petróleo: O Outro Lado da Equação

O Brasil não sofre apenas como exportador — também sente o baque nas importações. Do lado das importações do Oriente Médio, que em chamas, expõe como a guerra no comércio exterior vai além das tarifas e atinge rotas físicas, os fertilizantes estão entre os itens mais relevantes, com US$ 2,2 bilhões adquiridos por compradores brasileiros em 2025, o equivalente a 14,4% do total importado do produto. Política Livre Fertilizantes caros = custo de produção agrícola mais alto = pressão inflacionária sobre alimentos. A cadeia é simples, mas o efeito é devastador para quem está lá na ponta — o produtor rural e o consumidor final.

Há, porém, um ponto positivo paradoxal. Para o presidente-executivo da AEB, José Augusto de Castro, a guerra tende a ser positiva para o comércio exterior brasileiro pelo aumento nos valores das exportações de soja e petróleo, já que os preços tendem a subir. Política Livre A Petrobras já sentiu: suas ações subiram cerca de 4% com a escalada do conflito. Lucro no papel, risco na prática — é o dilema clássico de quem depende de commodities.



Acordo Mercosul-UE e a Diversificação Como Saída Estratégica

Em meio a tudo isso, uma boa notícia que veio em janeiro de 2026: a vontade política de assinar o acordo Mercosul-UE, que é hoje a resposta estrutural mais concreta que o Brasil tem para enfrentar a guerra no comércio exterior e foi alimentada especialmente pelo Brasil e pela Alemanha, com a Itália tendo posição decisiva para a aprovação no início de janeiro — embora ainda precise ser ratificado pelo Parlamento Europeu para entrar em vigor. Blog do IBRE Não é solução imediata, mas é um sinal de que o Brasil está tentando ampliar sua base de parceiros em um mundo onde os velhos acordos multilaterais perderam força.

Países e blocos econômicos aceleraram negociações para reduzir dependência de mercados tradicionais e mitigar os impactos das guerras tarifárias. O fortalecimento de parcerias na Ásia, no Oriente Médio e na África refletiu uma reorganização do comércio internacional, com maior peso para economias emergentes e mercados em crescimento. Efficienza O Brasil, que já figura como 24º maior exportador de mercadorias do mundo segundo a OMC, precisa urgentemente escalar essa posição — e em serviços, sequer aparece no top 30. Aí está um campo vasto e inexplorado.

🔎 O Que Vem Por Aí: Soluções e Alertas Reais

Para fechar, o que o setor de comércio exterior precisa colocar no radar agora:

Diversificação é urgente, não opcional. A dependência da China (29,2% das exportações) e a exposição ao Oriente Médio são pontos cegos que qualquer conflito transforma em prejuízo imediato. Abrir mercados na África, no Sudeste Asiático e em novos parceiros do Sul Global precisa sair do PowerPoint e virar rotina aduaneira.

Gestão de rotas e logística de contingência precisam ser tratadas como investimento estratégico, não como custo. Empresas que já operam com rotas alternativas mapeadas terão vantagem competitiva real nos próximos meses.

O risco de fertilizantes é o mais subestimado. Qualquer interrupção prolongada no fornecimento do Oriente Médio pode comprometer safras inteiras — e o Brasil, mesmo recordista em exportações agrícolas, ainda importa parcela relevante dos insumos que sustentam essa produção.

O Acordo Mercosul-UE, quando entrar em vigor, abre uma janela histórica — mas as salvaguardas agrícolas aprovadas pela UE precisam ser monitoradas de perto para que os ganhos não se transformem em promessa vazia.

Em síntese: o Brasil joga em várias frentes ao mesmo tempo, com recordes no placar e instabilidade no campo. Quem souber ler o jogo geopolítico com a mesma eficiência com que produz soja e frango vai sair na frente — e quem ignorar os sinais vai pagar caro pela omissão.


Fontes: MDIC/Secex, FGV/IBRE, AEB, ABPA, OMC, Comex Stat — dados de 2025/2026.